A moderna escultura maconde
17/04/1973
IV
A verdadeira génese da moderna escultura maconde ainda é assunto controverso. Ouvido sobre o assunto, o prof. Lyndon Harries (que missionou cinco anos entre os Macondes da actual Tanzânia, autor de uma gramática da língua falada pelos Macondes de Moçambique), iniciou o seu comentário acentuando que, embora designados pelo mesmo nome, este derivado da região planáltica que ambos habitam, uns e outros são, em boa vontade, étnica, cultural e linguísticamente distintos
Acontece mesmo que os primeiros designam os segundos, por um nome algo derrogatório: “Mavia” (derivado do verbo Kuviha, encolerizar-se). Tatuam-se menos, usam máscaras diferentes e são medíocres escultores. Os de Moçambique, quando atravessam o Rovuma, preferem procurar serviço nas planícies. Segundo as tradições que recolheu, os Macondes de Moçambique ter-se-iam instalado no planalto não por o considerarem como base propícia para o lançamento de incursões agressivas contra os povos circunvizinhos, como alguns pretendem, mas para melhor escaparem aos árabes e seus acólitos, que devastavam a região caçando escravos. Não considerou verdadeira a afirmação de que a arte tradicional maconde havia sofrido influências oriundas do Alto Nilo, dos Camarões, da Ásia ou do Médio Oriente.
Refutou, também, as acusações, algures levantadas contra missionários, de, entre os macondes do Tanganhica destruírem as esculturas de madeira, atacarem com intolerância e pérfida subtileza, os valores e as crenças tradicionais.
Em seu entender, os Macondes de Moçambique têm capacidade de iniciativas superior à dos seus pseudo-congéneres situados ao norte do Rovuma. Viajavam mais, chegando a atingir Nairobi. Foi assim que vieram a aperceber-se das potencialidades comerciais da sua arte, cedo aproveitadas por empresários, sobretudo indianos. Não seria de surpreender que as figuras sobrepostas que caracterizam a moderna escultura maconde, revelassem flagrante semelhança com as representadas em templos indianos. A dispersão deste estilo entre os escultores macondes deve-se apenas às natas propensões para a sua imitação. Tão pouco se trataria de qualquer reacção contra a Administração.
Nestas controvérsias encontrou também um dos comerciantes indianos assim acusados, Mahommed Pira, proprietário de uma famosa galeria de arte nativa. Segundo este, teriam sido os portugueses que, no princípio do século, começaram a incitar os macondes a produzir, em quantidades comerciais, determinados tipos de escultura. Cedo os imigrantes se espalharam ao longo da costa meridional da actual Tanzânia, dando origem a uma frutuosa actividade mercantil. O mercado em expansão, levou cada vez maior número de macondes a dedicar-se à escultura em madeira, numa florescência benéfica que não teria brotado se mantivessem as limitações do meio tradicional.
Por sorte, a emergência de novas formas, teria ocorrido na própria empresa que explora. Em 1953 apareceu ali um maconde, Manguli Istiauo de seu nome, o qual começou espontâneamente a talhar não as figuras habituais do homem fumando ou da mãe sentada junto do filho, mas grupos compostos de dançarinos em atitudes plenas de movimentos. A este artista, cedo se juntaram outros macondes, uns já mestres, outros simples aprendizes. Sempre lhe teria sido concedida inteira liberdade de criação. Apenas foram elucidados acerca da preferência dos compradores pelas peças que representassem figuras em movimento.
Foi então que, de modo absolutamente inesperado e até insólito, surgiu Samaki, oriundo de Mueda, que pode ser considerado como o pai da moderna escultura maconde. De início apresentava apenas figuras rígidas, medíocres e sem expressão, que constrastavam desfavorávelmente com o trabalho dos seus colegas e que, como era óbvio, não agradavam aos patronos indianos. Como resultaram infrutíferas as tentativas que fizeram no sentido de o levar a melhorar a qualidade da sua produção, foram constrangidos a informá-lo de que não podiam continuar a adquiri-la.
Samaki, homem de forte personalidade e possivelmente ferido no seu orgulho, rogou, de modo insistente, que o aceitassem durante mais algum tempo. Semanas depois voltou a apresentar-se com as habituais figuras medíocres mas entre elas encontrava-se uma algo estranha: a cabeça era representada por uma simples esfera com três orifícios; o corpo era em forma de bolbo com duas pernas finas sobre uma base redonda. Intrigado, Mohammed Pira inquiriu-o. Samaki agiu de modo imprevisível: negou terminantemente que tivesse esculpido a figura e afirmou desconhecer até o nome do seu autor.
À segunda visita, Pira voltou a interrogá-lo sobre a insólita estatueta. Então, Samaki, finalmente satisfeito com o interesse que a sua obra original havia despertado, disse com fingido descaso: «Ah! Está a referir-se à figura chetani?» Solicitado a produzir mais peças do mesmo estilo, as suas potencialidades de artista revelaram-se com gritante pujança.
Outro escultor, Jauanila, notando expostas na loja algumas das insólitas peças, perguntou a Mohammed Pira se estava interessado no estilo chetani. Tendo recebido resposta afirmativa, talhou uma figura horripilante e unípoda, com um braço disforme e distendido, sustentano uma cabeça e, enfim, uma face composta, de um lado, por um olho e um grande ouvido, e, do outro lado, uma serpente. Afirmou representar Loca, figura do folclore maconde.
Baseados no Prof. Jorge Dias, permitimo-nos desde já, corrigir esta informação. Lhoca é o nome genérico dado ao morto que, pelas crenças macondes, continua a beneficiar de alguns atributos dos vivos. Diz aquele catedrático:
«Esses macoka (pl.) animados de vida própria bastante semelhante à dos viventes, são legião. Mas nem todos são poderosos».
Na história da cultura maconde tinha começado a “idade dos espíritos”. Os artistas, libertos de figuras rígidas e estereotipadas, dando livre curso ao seu individualismo, usando técnicas menos severas e aproveitando mesmo o ébano, outrora considerado defeituoso, ébano que agora desafiava a sua imaginação, começaram a produzir peças de beleza surpreendente, a recorrer à abstracção para exprimir os seus pensamentos e sentimentos e, até, para representar as suas experiências pessoais. Pira conta que, certa feita, um dos artistas lhe trouxe uma figura de face mutilada empunhando um telefone. Informou-o, ardendo em despeito, que pretendera representar um guarda-fios que, procurando impressionar sua mulher, tocava insistentemente o telefone diante da palhota onde morava. Outro passou meses na floresta procurando antigos troncos de ébano, com as formas que julgava apropriadas para trasnmitir a sua mensagem. Os aprendizes cedo se transformaram em plenos artistas, cada qual revelando estilo próprio e propendendo a experimentar novos temas assim que fatigados dos antigos. E foi assim-segundo o mercador indiano- que os artistas macondes penetraram no palco mundial e se tornaram internacionalmente famosos.
~ Fim do Artigo ~