A moderna escultura maconde

13/04/1973

I

Muito embora tivéssemos já coleccionado e admirado largas dezenas de reproduções fotográficas das modernas esculturas maconde, apenas durante a visita que recentemente efectuámos aos Estados Unidos da América nos foi dado apreciar exemplares autênticas dela.

Michael Samuels (o jovem editor de que reputamos o mais equilibrado e melhor documentado livro estrangeiro até hoje escrito sobre a África Portuguesa) nada nos tinha dito sobre o assunto. Que surpresa quando penetrámos na sua sala e nos deparámos com maravilhosa colecção! Depois, com a cativante simplicidade que caracteriza tantos americanos, afastou-se explicando que ia meter no forno o enorme e suculento bife do nosso jantar e, enfim, tratar do bebé porque a sua esposa se encontrava ausente. Ali, a sós, pudemos então extasiar-nos, perante aquelas peças que artistas anónimos haviam talhado como que por mero acaso. As fotografias que tínhamos visto apenas nos haviam dado pálida ideia das novas formas em que se continuava revelando o inconfundível génio escultórico dos macondes. Obras verdadeiramente expressionistas, prenhes de força emotiva, embora contendo símbolos de rara abstracção. O impacto derivava sobretudo, das distorções deliberadas dos contornos naturais.

Compreendemos então por que Pierre Bomeguerre, o crítico de arte francês, as havia classificado como “ um dos mais importantes marcos da história da arte desde que surgiu o movimento surrealista há século e meio”. E também porque lhe têm aberto as suas portas, reputadas galerias de arte das grandes capitais, como a «Gosvenor Gallery» de Londres e, mais próximo de nós, a «Herbert Evans Art Gallery» de Joanesburgo. Compreendemos melhor, enfim, porque tantos críticos consideram o Expressionismo inspirado pela arte negra.

Que pena quando soubemos, por Michael Samuels, que se encontrava ausente o feliz proprietário duma colecção muito superior à sua, existente naquela mesma cidade de Washington: Anthony Stout, cuja obra ilustrada já conhecíamos. Apenas na Escola de Arte da Universidade de Siracussa conseguiríamos, mais tarde, obter o belo catálogo fotográfico da exposição ali realizada, com peças cedidas pelo mesmo A. Stout e outros coleccionadores.

Mas antes de expormos os elementos que conseguimos apurar sobre a génese da moderna escultura maconde, vamos fazer breve referência à arte tradicional deste povo, arte que mereceu a melhor atenção e os mais rasgados encómios de qualificados estudiosos.

Em Moçambique cabem honras de pioneiro ao Dr. A. Pires de Lima que, mobilizado durante a 1ª Grande Guerra, conseguiu reunir uma valiosa colecção de objectos cujos desenhos e fotografias oportunamente publicou. Entre elas se encontravam quatro toscas mas puras estatuetas macondes, talhadas em madeira leve e com toda a evidência antes daquele povo que se manteve praticamente isolado até 1913, sofrer significativas influências exteriores.

Também os exemplares apresentados na Exposição Colonial de Paris (1913), alcançaram grande êxito, recebendo elogios por parte dos apreciadores franceses.

Os críticos de arte nacionais, cedo se debruçaram sobre o fenómeno maconde. Escrevendo em 1935 o Dr. J. Nunes de Oliveira já afirmava que «dum modo geral, toda a produção escultórica desta raça previligiada acusa as mesmas virtudes plásticas essenciais a essa gravidade hierática e sóbria que tão visivelmente a integra, realçada na «arte negra ou africana» e verdadeiramente faz destes artistas os seus autênticos representantes em Moçambique».

Entre os pioneiros que procuraram divulgar a escultura dos macondes é justo salientar Felisberto Ferreirinha que também em 1935, organizou nesta cidade uma exposição de bustos e estatuetas, proferindo, simultaneamente, sobre ela, uma interessante palestra. Em 1943 e 1944 conseguiu efectura na Feira Franca de Nampula, uma valiosa apresentação de actividades artísticas das populações nortenhas, com destaque especial para a arte maconde. Numa conferência proferida na Sociedade de Estudos, em 23/07/1949, por ocasião da inauguração de uma «Exposição de Escultura dos Macondes» em que apresentou 76 estatuetas, referiu-se em termos entusiásticos às manifestações artísticas deste grupo étnico.

O professor Jorge Dias, autor da grande monografia sobre este grupo étnico, não hesita em afirmar que os macondes podem considerar-se o único povo da costa oriental portador de uma autêntica tradição escultórica digna de figurar entre a grande arte africana».

Segundo o mesmo catedrático, a lenda maconde sobre a origem da primeira mãe- que teria sido talhada num tronco e beneficiada com o dom da vida- pode perfeitamente explicar as primitivas esculturas em madeira relacionadas com a ancestrolatria. Era também costume, prestar culto aos antepassados femininos e masculinos, estes por via mastriliniar. Esta tendência deu lugar à escultura de pequenas figuras de qualquer dos sexos, com fins apotropaicos, figuras que se colocavam de pé dentro das palhotas ou se levavam de jornada, amarradas com um cordão. Existem bastantes exemplares destas estatuetas em museus nacionais e estrangeiros. Seja como for, a prefêrencia pela representação feminina era muito acentuada no passado, constanto de máscaras de mapico e da iniciação, estatuetas protectoras durante as viagens, tampões de recipientes; punhos de armas e bastões, etc.

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